SIMPÓSIO – Melancolia: entre a fisiologia e o espírito

Ponto de encontro entre a fisiologia e o espírito, a melancolia é, desde a Antiguidade, objeto de uma teorização complexa e multidisciplinar, que ultrapassa as fronteiras de sua inscrição original no campo da medicina. Muito embora tenha sido difundida no Ocidente a partir dos escritos do Corpus Hippocraticum como parte da teoria dos quatro humores, ela se impôs como objeto de investigação tanto em tratados médicos quanto filosóficos, canônicos, monásticos, demonológicos, éticos e estéticos.

Se esta vasta produção é múltipla, um aspecto a solidariza: os tratados ou textos que pensaram a melancolia partiram sempre dos seus estados “clínicos”, nunca das propriedades da suposta substância que estaria em sua origem. Em larga medida, foram todos sustentados por uma sutil e recorrente falácia lógica. Pois, diferentemente do sangue e da bile amarela, a bile negra (melan-colia), uma vez que ninguém jamais a viu, é o que ela causa, e não o que ela é. Desde cedo, a melan-colia se constituiu como uma curiosa formulação que aglutina causa e efeito, mas que descreve exclusivamente seus efeitos: o estado psico-fisiológico derivado do seu excesso.

No entanto, mais do que um problema puramente clínico, ou de fundo epistemológico, a melancolia é um tema nobre na Idade Moderna: um espaço de disputas sociais, um motor de cultura, um topos que invade todos os campos da representação. Índice maior do gênio, ela é presença obrigatória na psicologia do grande artista, qualidade necessária e sine qua non de todo aquele que pretendesse ascender ao panteão dos grandes criadores. Por conta disso, a existência presumível da bile negra sustentou a produção de centenas de obras teóricas, artísticas e literárias, uma tradição rica em remanejamentos, sínteses e reorientações.

Muito embora tenha sido ampla e multidisciplinarmente investigada no exterior, a melancolia têm sido, no Brasil, tomada como objeto quase exclusivo dos campos psicanalítico-psiquiátrico. O presente simpósio, aberto a especialistas das mais diversas disciplinas, pretende promover um diálogo interdisciplinar acerca da melancolia, de suas teorizações e emanações, tanto clínicas, quanto científicas artísticas ou literárias, e mesmo de suas atualizações contemporâneas.

Para o simpósio, apontamos aqui, não exaustivamente, algumas linhas de trabalho que poderão servir de orientação geral às mesas e debates:

  • O paradoxo fundamental da melancolia, a falácia lógica na qual repousa sua teoria, faz dela uma noção emblemática da racionalidade pré-moderna, onde se trata menos de investigar as causas do que de justificar os efeitos, onde o encadeamento lógico causal entre umas e outras não é uma necessidade intelectual. Que testemunho podem nos dar suas diversas enunciações e teorizações acerca dos parâmetros e das condições do conhecimento, tais como eles são assumidos neste período histórico?

  • A noção de melancolia – operacional desde a Antiguidade até os dias de hoje – é extraordinariamente longeva, muito embora tenha sofrido inúmeras reorientações ao longo do tempo. Que perspectivas de observação sobre a história das mutações epistemológicas pode nos oferecer a tradição tratadística sobre a melancolia, justamente em suas rupturas, inflexões e reorientações, mais ou menos sutis?

  • As transformações sociais e econômicas qua marcam a passagem à Idade Moderna se acompanham de mutações no campo científico, ético e estético que configuram uma transformação tão radical quanto global das mentalidades no ocidente. Como se implica neste movimento a melancolia, topos onipresente em todos os campos da representação nos séculos XVI e XVII? Pode ela ser tomada como um sintoma deste processo?

  • Na Idade Moderna, novas temporalidades são criadas a partir de um novo espaço construído pela técnica, apartado da sensibilidade e da percepção. Um certo mal estar espacial se transmuta em melancolia, fruto da desterritorialização construída com a modernidade. Como pensar a melancolia a partir das novas formas de organização do espaço da modernidade europeia e do processo de europeização do mundo?

  • Muito embora atualizada pela psiquiatria como arquétipo ligado à etiologia da depressão, a melancolia é hoje destituída da positividade ética que a caracteriza nos séculos XVI e XVII. Numa civilização que valoriza essencialmente a ação e a produção não parece haver espaço ético possível para a prostração melancólico-depressiva que, paradoxalmente, se revela como uma das grandes afecções do mundo contemporâneo. Qual é então o locus da melancolia hoje, entre a evidência de sua presença e sua negação pela ética comportamental? Como a enxergam o pensamento e a arte contemporâneos?

ACESSE AQUI A PROGRAMAÇÃO COMPLETA

Calendário

Prazo para submissão de propostas: encerrado em 15 de julho de 2013
Realização do simpósio: 26 e 27 de novembro de 2013

Local

Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ
Instituto de Medicina Social - Auditório
Rua São Francisco Xavier nº 524 - Maracanã
Bloco E - sala 6.012 (entrada pelo 7º andar)

Comissão Organizadora

André Rangel Rios (IMS-UERJ)
Maya Suemi Lemos (IFHT-UERJ)
Rafael Viegas (FL-UFRJ)

Comitê Científico

André Cabral de Almeida Cardoso (IL-UFF)
André Rangel Rios (IMS-UERJ)
Eduardo Pimentel Menezes (IFHT – UERJ)
Luciana Villas Boas (FL-UFRJ)
Maya Suemi Lemos (IFHT-UERJ)
Rafael Viegas (FL-UFRJ)
Sérgio Alcides Pereira do Amaral (FL-UFMG)

Postado em 26 de Julho de 2013, às 01:12h